A
escravidão em Vitória da Conquista entre 1850 e 1870: o caso do liberto Joaquim
“Forro”.
Iracema Santos Medrado[1]
Resumo
Este
presente artigo tem como objetivo relatar a vida do escravo chamado Joaquim “Forro”
baseado em seu inventário feito em 1863 por um tabelião,onde consta como
testamenteiro seu ex-senhor Theotonio Ramos Pereira e outro senhor de escravos
da região João Moreira, além de um relato histórico da fundação da arraial Vila
Imperial da Vitória, onde o mesmo residiu até seu falecimento. Em seu testamento, Joaquim Forro
relata os anos de cativeiro e o agradecimento ao seu senhor por tê-lo
alforriado e acolhido em sua doença, no mesmo ano de seu falecimento.
Palavra chave: Escravidão, Alforria, inventário.
Abstract
Keyword: Slavery, Alforria, inventory.
Introdução
This
present article aims to describe the life of a slave named Joaquim
"Lining" based on their inventory done in 1863 by a notary, where
applicable as executor his former master Theotonio Ramos Pereira and another
slave master Joao Moreira in the region, and a historical account of the
founding of the Imperial Villa of Victory camp, where it resided until his
death. In his will, Joaquim Lining recounts the years of captivity and thanks
to his master to have him freed and welcomed in their illness in the same year
of his death.
Keyword: Slavery, Alforria, inventory.
Introdução
A importância do estudo da
escravidão na historiografia baiana integrada a monocultura do açúcar e outros
produtos para exportação em troca de negros africanos para o trabalho escravo
no período colonial e na formação do império brasileiro, entre os séculos XVII
ao XIX.
A formação política e econômica
de Salvador e as cidades do Recôncavo baiano estiveram ligadas a exportação de
algodão, fumo e açúcar até perder sua importância com a mudança da sede da
coroa portuguesa para o Rio de janeiro em 1763.
A descoberta de ouro na
região das Minas Gerais acelerou o processo de decadência econômica da
província. Logo, as cidades de Porto Seguro e Ilhéus se tornaram núcleos de
abastecimento de gêneros alimentícios para Salvador. As zonas açucareiras do
centro e do interior encaminhavam farinha de mandioca, feijão, cacau, milho
para o litoral e recebiam africanos para trabalho escravo nas lavouras.
Em Salvador, a ação de
traficantes de escravos só foi interrompida com as pressões para o fim do
tráfico negreiro com a lei de sete de novembro de 1831, que considerava ilegal
a entrada de africanos como escravos e declarava livres todos os que entravam
no país a partir dessa data.
Mas a lei acabou se tornando
inútil, pois os “africanos livres” confiscados pela fiscalização nos portos
eram revendidos nos mercados e encaminhados para o interior da província. Mesmo
com a Lei Eusébio de Queiroz, o tráfico negreiro diminuiu, mas continuou a
entrada clandestina de africanos entre os portos da Bahia e de Angola, na
África até a emancipação escrava com as leis abolicionistas do como Ventre
livre em 1871.
Os abalos na importação de
escravos foram sentidos pelos escravistas quando não puderam mais repor a mão
de obra cativa através do tráfico negreiro. A falta de recursos financeiros
arruinou donos de engenho e comerciantes portugueses de Salvador que não
puderam saldar suas dividas com os traficantes de escravos na África.
As conseqüências foram à
elevação do preço do escravo africano e uma grande crise nas exportações de
produtos primários entre Brasil e África em troca de cativos africanos. A
situação foi amenizada com a introdução do cacau no sul da Bahia para superar a
decadência do açúcar, em 1873, que gerou uma grave crise nas exportações por
causa de mudanças climáticas.
No Recôncavo, os engenhos de
açúcar foram substituídos pelas lavouras de Cacau se expandiram e a mão de obra
africana foi utilizada pelos grandes proprietários de terras enquanto em
Jaguaribe, Nazaré e Camamu havia a produção de farinha de mandioca feita por
cativos indígenas.
Já no sertão, as fazendas de
gado e de milho estabeleciam trocas comerciais com o alto São Francisco através
do trabalho assalariado de “cabras” (descendentes de indígenas livres) e
mulatos livres.
No agreste, as difíceis
condições de vida não eram propicia para a acomodação do escravo africano
porque não havia extensas lavouras que necessitasse de grande número de cativos
para o trabalho. Logo, a grande concentração de mão de obra escrava, de origem
africana, ficou restrita ao litoral e ao recôncavo.
A região sudeste do estado
da Bahia foi povoada através da ação de bandeirantes a serviço da coroa
portuguesa em meados do século XVII e XVII.
O território onde hoje está
localizado o Município de Vitória da Conquista foi habitado pelos povos
indígenas Mongoyó, Ymboré e Pataxó. Os aldeamentos se espalhavam por uma
extensa faixa, conhecida como Sertão da Ressaca, que vai das margens do Rio
Pardo até o Rio das Contas.
O nome Sertão da Ressaca era
derivado tanto do fenômeno de invasão das águas dos rios sobre o sertão,
semelhante ao fenômeno marinho, como da palavra ressaço, que corresponde à
funda baía de mato baixo circundada por serras.
Nesse local as bandeiras
independentes iam buscar de metais preciosos enquanto as oficiais eram contratadas
para adentrar o sertão baiano para demarcar os limites territoriais. Nas
explorações de matas e vales muitos bandeirantes encontraram aldeias e tentaram
por algum tempo um contato amistoso com os indígenas.
Um dos responsáveis pelo
desbravamento do Sertão da Ressaca foi o bandeirante João Gonçalves da Costa,
português nascido na cidade de Chaves, provavelmente em 1720. Ele ficou
conhecido como um conquistador violento e dizimador de aldeias indígenas da
região.
No entanto, os indígenas não
aceitaram perder suas terras para os portugueses como João Gonçalves da Costa e
pela guerra tentaram expulsar os invasores. Os portugueses, por outro lado se
aliou a tribos rivais da região, para exterminar os inimigos. No entanto, as
tropas de João Gonçalves da Costa traíram seus aliados e os submeteu a escravidão.
De acordo com as fontes
consultadas, o bandeirante João Gonçalves se deparou com os índios Mongoyó (ou
Kamakan), Ymboré e Pataxó que habitavam a região e pertenciam ao mesmo tronco:
Macro-Jê. Cada um deles tinha sua língua e seus ritos religiosos.
Seus inimigos naturais, os
Ymboré também conhecidos como Botocudos, tinham pele morena e o hábito de
usarem um botoque de madeira nas orelhas e lábios - daí o nome Botocudo. Já os
Pataxós, que se fixaram mais no agreste não apresentavam grande porte físico.
Fala-se de suas caras largas e feições grosseiras.
Ymboré, Pataxó e Mongoyó
travaram várias lutas entre si pela ocupação do território. O sentido dessas
lutas, porém, não estava ligado à questão da propriedade da terra, mas à
sobrevivência, já que a área dominada era garantia de alimento para a
comunidade.
João Gonçalves se aproveitou
das rivalidades entres essas tribos para estimular a guerra entre eles e assim
tomar posse de toda a região do Rio das Contas.
Pois o objetivo do
bandeirante era escravizar os índios para encaminhá-los ao litoral como mão de
obra para os engenhos de açúcar. Após as guerras contra os indígenas e tomarem posse
de suas terras, os portugueses liderados por Gonçalves da Costa criaram os
arraiais e distribuíram sesmarias para novos colonos ao fundarem a vila
Imperial da Conquista no século XVIII.
Logo, a escravidão do
indígena se tornou inviável pelas fugas e ataques de tribos que resistiram a
escravidão. A solução foi à introdução de africanos para as lavouras de cana de
açúcar e para as fazendas de gado na região.
A
formação do arraial Vila Imperial da Conquista
O
bandeirante João Gonçalves da Costa chegou ao território onde hoje está Vitória
da Conquista depois do esgotamento das minas de ouro de Rio de Contas e das
Gerais. Ele procurava novos pontos de exploração mineral. Embora não tenha
encontrado ouro por aqui, ele acabou ocupando a região e fundando o Arraial da
Conquista.
Há um elemento importante
sobre João Gonçalves que gera ainda controvérsia em relação aos historiadores
da cidade. Segundo os registros históricos, ele era um "preto forro",
ou seja, um ex-escravo. No entanto em recente revisão historiográfica sobre a
vida de João Gonçalves da Costa, elementos comprovam que era branco, de origem
portuguesa e pertencia a fidalguia lusitana antes de vir à colônia em buscar
ouro e fama.
A ascensão política de
pessoas como João Gonçalves da Costa dava-se por meio de sua coragem e de sua
fidelidade à Coroa Portuguesa, pois ocupação do Sertão da Ressaca foi realizada
à custa da derrota dos povos indígenas.
Primeiro João Gonçalves
enfrentou o povo Ymboré que tidos como valentes, resistiram à ocupação do
território. Por causa da fama de selvagens, foram escravizados pelos
colonizadores. Para piorar a situação, os Mongoyó aliaram-se aos portugueses
para derrotá-los.
Depois dos Ymboré, foi a vez
dos Pataxós Eles também resistiram à ocupação estrangeira, mas acabaram se
refugiando para o sul da Bahia (Porto Seguro), onde em número reduzido,
permanecem até hoje, lutando para preservar sua identidade e seus costumes.
Os Kamakan-Mongoyó
conseguiram estabelecer relações mais estreitas com os colonizadores a fim de
garantir sua manutenção como povo. Ajudaram os portugueses na luta contra os
Ymboré.
Depois que os portugueses
conseguiram dominar os Ymboré e os Pataxós, os Mongoyó foram escravizados e
obrigados a trabalhar na abertura de estradas e na derrubada das matas, para
que fosse instalada a pecuária. Ao perceberem a traição, organizaram uma
reação.
Em 1752, ocorreu a batalha
que entrou para a história de Vitória da Conquista como uma das mais
importantes. Sabe-se que naquele ano, aconteceu uma fatídica luta entre os
soldados de João Gonçalves da Costa e os índios. Os soldados, já fatigados,
buscavam forças para continuar o confronto. Na madrugada posterior houve um dia
intenso de luta contra os indígenas. Diante da fraqueza de seus homens, João
Gonçalves teria prometido a Nossa Senhora das Vitórias construir uma igreja
naquele local, caso saíssem dali vencedores.
Essa promessa foi um
estimulante aos soldados que, revigorados, conseguiram cercar e aniquilar o
grupo indígena que caiu, no alto da colina, onde foi erguida a antiga igreja em
homenagem a santa que foi demolida em 1932.
Não se sabe ao certo se essa
promessa foi realmente feita, pois não há relato escrito sobre esse assunto nas
cartas enviadas por João Gonçalves ao governador em Salvador quando relatou o
sucesso de sua conquista na região.
O enfrentamento entre
portugueses e indígenas se prolongou até o século XIX. Além dos confrontos
diretos, os portugueses utilizaram estratégias como o oferecimento de roupas
infectadas com varíola aos índios e até um embriagamento coletivo dos índios.
Com o extermínio e a fuga para o interior, o arraial necessitava de mão de obra
cativa para trabalhar nas fazendas da região com a introdução do gado.
A
escravidão africana e indígena na Vila Imperial da Vitória
Em meados do século XVIII e
inicio do século XIX, a introdução de escravos africanos foi feito de maneira
intensa por fazendeiros dos pequenos arraiais do sudeste da Bahia. O recôncavo
baiano em comparação ao sertão já havia intensificado a escravidão com a
introdução do cacau em substituição da cana de açúcar que estava em crise no
mercado internacional, graças à concorrência com os holandeses nas Antilhas.
Na região do Rio das Contas,
o contato entre fazendeiros baianos e das Minas Gerais no alto São Francisco
favoreceram o comercio de couro e carne para abastecimento local e regional com
o trabalho de mestiços (branco com índio) chamado de “cabra” e dos primeiros
africanos.
No final do século XVIII, o
Arraial da Conquista se resumia a uma igreja e algumas dezenas de casas. Nesse
tempo, ainda existiam matas densas com fauna e flora bastante ricas.
A paisagem começou a mudar
com a chegada dos primeiros rebanhos bovinos. As matas foram derrubadas para
dar lugar aos pastos. O Arraial virou passagem para o gado trazido pelos
tropeiros de Minas Gerais que iam em direção ao litoral.
O próprio João Gonçalves da
Costa, fundador do Arraial, tornou-se proprietário de gado. A família Gonçalves
da Costa foi a mais rica produtora de leite e carne da região durante mais de
um século.
O arraial logo se
transformou em cidade foi crescendo lentamente. As primeiras ruas mantendo-se
próximas ao leito do rio Verruga, região que vai da atual rua Ernesto Dantas
até a avenida Bartolomeu de Gusmão, passando pelo CEASA. Em 1780, havia cerca
de sessenta casas no Arraial.
Já em 1840, ano em que o
Arraial foi elevado à condição de Vila Imperial da Vitória, distrito da Vila de
Caetité, este número já havia se multiplicado. Além dos colonizadores e seus
descendentes e dos negros, a Vila recebeu sertanejos e litorâneos.
Nessa época, além do gado,
produzia-se algodão, óleo de copaíba e alimentos necessários à subsistência dos
moradores. Os escravos negros foram a principal mão-de-obra das lavouras e,
também, boa parte dos vaqueiros. A herança dos negros está presente em vários
aspectos da cultura conquistense e nos mais de dez remanescentes de quilombos
do Município e da região.
A Vila elevou-se à categoria
de cidade em 1891, quando passou a se chamar Conquista. Em 9 de novembro
daquele ano, foi instalada a Câmara de Vereadores, sendo esta a data escolhida
para o dia do aniversário da cidade atualmente chamada de Vitória da Conquista.
A
vida de Joaquim Forro em Vila Imperial da Conquista no século XIX
Nesta ambiente, Joaquim “Forro”
foi deslocado do litoral para o interior da Bahia para trabalhar na lavoura no
final do século XVIII. Na Vila Imperial
da Vitória foi comprado por Theotonio Ramos e por serviços prestados recebeu
sua alforria em 1813, mas permaneceu trabalhando como livre para seu antigo
senhor por muitos anos.
Em fevereiro de 1863, Joaquim
“Forro” adoeceu e pediu ao tabelião do arraial para redigir seu testamento onde
determinava que Theotônio Ramos Pereira e João Moreira fossem seus herdeiros e
dispusesse de seus escassos bens com a sua morte.
Também determinou que duas
escravas de João Moreira recebessem alguns contos de réis, além de objetos
pessoas que pertenciam a ele, além de dispor de outros recursos para sua missa
fúnebre e as despesas com o enterro no cemitério da cidade.
Fatos relatados sobre o
legado de Joaquim “Forro” aos seus antigos senhores podem aparentemente demonstrar
a posição de subserviência que o mesmo teve durante o período de cativeiro e
depois como livre.
Não era algo incomum ao
ex-escravo, no inicio do século XIX, continuar a serviço de seu senhor na
condição de alforriado. Assim como intitulá-lo seu testamenteiro na ocasião de
seu falecimento por te-lo acolhido num momento de enfermidade e posterior
morte. Ações beneméritas de senhores de
escravos são casos raros na historiografia referente à escravidão. Com a
análise de nova fonte documental como os testamentos de ex-escravos e livres, há
artigos e teses que apontam ações de doações de bens a antigos senhores ou
outros escravos em inventários. Ao analisar testamentos de negros forro na
província de São Paulo, Regiane Augusto de Mattos comenta que
Em várias
ocasiões a liberdade era concedida mediante uma condição pré–estabelecida, que
deveria ser cumprida pelos herdeiros ou testamenteiros encarregados a realizar
satisfatoriamente os desejos do finado testador. Por outro lado, muitos foram
os escravos que, depois de libertos, conseguiram adquirir algum patrimônio,
bens móveis, imóveis e escravos, deixando, da mesma forma que o antigo senhor,
seu legado à parentes e amigos, assim como, liberdade a seus cativos.(MATTOS,
1997,p.1)
Mas lembremos de que na
historiografia Brasileira houve exemplos de escravos que eram bem tratados e
conseguiram se alforriar por bons serviços prestados os seus donos. No entanto,
não era comum um liberto nomear seu antigo senhor como herdeiro, pois a lei do
ventre livre de 1870 já determinava que os bens de um escravo falecido pertencessem
ao dono, caso o mesmo morresse sem herdeiros.
No caso de Joaquim Forro, a
lei não pode se aplicada, pois era livre desde 1813 e faleceu em 1863. E na
época de seu falecimento havia acumulado um pecúlio e sem família ou herdeiros,
o mesmo queria devolver a gratidão pela alforria dada pelo seu antigo dono com
sua pequena herança. Também não esqueceu duas amigas escravas que o havia
acompanhado em vida que também foram beneficiadas em seu testamento.
A
questão curiosa foi uma carta ditada por João Forro, em que justifica as razões
para deixar seus bens a Theotônio Ramos e João Moreira e relata sua vida em
cativeiro e o bom tratamento recebido por seu senhor, mesmo nos rigores da
escravidão.
E
justifica sua condição para fazer um inventário de seus bens ao citar as leis
referentes à manutenção da escravidão no Brasil como o Alvará de 10 de Maio de
1808 que
cria a Casa de Suplicação e a administração da justiça em que
“Eu
o Principe Regente faço saber aos que o presente Alvará com força de lei virem,
que tomando em consideração o muito que interessa o estado e o bem commum e
particular dos meus leaes vassallos em que a administração da justiça não tenha
embaraços que a retardem e estorvem e se faça com a promptidão e exactidão que
convém, e que afiança a segurança pessoal e dos sagrados direitos de
propriedade que muito desejo manter como a mais segura base da sociedade civil;
e exigindo as actuaes circumstancias novas providencias, não só por estar
interrompida a communicação com Portugal e ser por isto impraticavel
seguirem-se os aggravos ordinarios e appellações que até qui se interpunham
para a Casa da Supplicação de Lisboa, vindo a ficar os pleitos sem decisão
ultima com manifesto detrimento dos litigantes e do publico que muito
interessam em que não haja incerteza de dominios e se findem os pleitos quanto
antes; como tambem por me achar residindo nesta Cidade que deve por isso ser
considerada a minha Côrte actual; querendo providenciar de um modo seguro estes
inconvenientes e os que podem recrescer para o futuro em beneficio do argumento
e prosperidade da causa publica” (ALVARÁ REGIO, 10 DE MAIO DE 1808)
Cita
também a lei de 1831 que determina a punição para crime de escravos visto que
“Durante o
Império, são editados no Brasil o Código Criminal (1830) e o Código de Processo
Criminal (1832). Não fosse o paradoxo da escravidão, da pena de açoite,
poder-se-ia dizer que adotamos um regime punitivo tecnicamente liberal. A
incidência da pena de morte foi drasticamente reduzida (apenas para casos de
homicídio, latrocínio e rebelião de escravos), as execuções passaram a ser
realizadas de forma austera, sem o espetáculo da mutilação e da exposição do
cadáver, com os julgamentos se efetivando por um conselho de jurados formado
por doze cidadãos, todos "eleitores" (o que, na época, significava
dispor de poder econômico) e de "reconhecido bom senso e probidade".
Aliás, os argumentos para a manutenção da pena de morte no Código Criminal do
Império, após intenso debate político, foi a própria escravidão e a necessidade
de produzir exemplos”.(CARVALHO FILHO,2004,189)
Essa lei punia com rigor os
crimes de escravos contra senhores em função das rebeliões e assassinatos
cometidos na província da Bahia entre os séculos XVII ao XVIII.
Com a lei Áurea em 1888, o
código criminal de 1831 perdia seu caráter jurídico ao entender que já não
havia mais escravos para punir.
No caso de Joaquim “Forro”,
as disposições legais para sua condição de liberto não mudava sua condição
social, apesar do direito adquirido pelo mesmo de faz um testamento (mesmo
sendo analfabeto) ou ser sepultado como cristão com cemitério da Igreja
contanto que pudesse pagar pelo enterro e as missas para sua alma.
Isso era permitido por sua
condição econômica visto que perante a sociedade conquistense, continuava
escravo e subserviente dentro da ordem escravista.
Conclusão
A
vida de Joaquim “Forro” foi citada neste artigo para se entender a forma como o
liberto se integra num papel de submissão e paternalismo na sociedade
escravista de Vitória da Conquista no final do século XIX. Neste caso
específico uso o termo paternalismo para analisar a relação de benevolência
entre o ex- cativo e seu antigo proprietário Theotônio Ramos Pereira, cuja
relação senhorial colocava em evidencia a subserviência e a gratidão pela
liberdade conquistada por bons serviços.
Segundo
análise de Andrea Santos Pessanha, o conceito de Paternalismo estava ligado a
pedagogia da violência que
Foram mecanismos utilizados pelos proprietários para
controle dos escravos desde o Brasil - Colônia. O paternalismo foi uma forma de
manutenção da ordem social. Juntamente com o uso da força, da violência
exercida diretamente sobre o cativo – muitas vezes com o próprio aparelho
repressivo do Estado – os donos de escravos utilizavam também mecanismos de
controle social que buscavam vínculos entre os dois pólos. Tais relações não
implicam simplesmente em benevolência senhorial e sim em buscar outras formas
de manutenção do sistema escravista.
O paternalismo ligou-se a um conjunto de manipulações,
negociações entre senhores e escravos. Se para os primeiros era um instrumento
de controle, para os cativos tinha o sentido de abrandar a vida na escravidão.
Estabeleciam-se práticas costumeiras como possibilidade de fazer pecúlio, um comércio
local, manutenção de famílias, escolha de parceiros conjugais, acesso à roça,
freqüência aos batuques e às irmandades religiosas negras que deveriam ser
respeitados caso contrário poderiam ocorrer fugas, revoltas, assassinatos na
comunidade escrava[2].
As vantagens obtidas dentro do cativeiro não deveriam
ser vistas pelo escravo como conquista e sim concessão, de maneira a gerar um
sentimento de gratidão. O escravo grato, que consegue espaços para negociação,
mantinha a esperança de conquista da alforria. A possibilidade desta era, a
rigor, um importante mecanismo de controle social e de diferenciação entre os
escravos.
Os
termos do testamento de João Forro se apresentam como um relato dessa gratidão
na acolhida pelo senhor em sua doença e na sua ajuda para ter uma morte digna
como negro livre.
Referência:
Alvará de
10 de maio de 1808. Disponível em: < www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_25/alvar1005.htm>
acesso em 05 nov. 2011.
BACELAR,
Jeferson. CAROSO, Carlos (org). Brasil,
um país de negros? Rio de Janeiro: Pallas,Salvador – CEAO, 1999. 284 p.
CALMON,
Pedro. História da Bahia. Resumo
didático. 2 ed. São Paulo: Melhoramentos de São Paulo, 1954.300 p.
CARVALHO FILHO, Luís Francisco. Impunidade no
Brasil : Colônia e Império. Estud. av. [online]. 2004,
vol.18, n.51, pp. 181-194. Disponível em: < www.scielo.br/> acesso em 05 nov. 2011.
História de Vitória da
Conquista – Bahia. Disponível em: <http://www.pmvc.com.br/v1/conteudo/9/historia.html >
acesso: 05 nov. 2011.
MATTOS,
Regina Augusto. A prática da
alforria e o perfil do liberto nos testamentos paulistas do século XIX.São Paulo: Editora da USP
, 1997. 33p
Disponível em:< www.scielo.br > acesso: 09 nov. 2011.
OLIVEIRA,
Maria Inês Côrtes. O Liberto: o seu
mundo e os outros. São Paulo: Corrupio,1988.111p.
PESSANHA, Andrea Santos. Aristides Lobo e André Rebouças: paternalismo e abolição da escravatura
na imprensa do Rio de Janeiro. Rio de janeiro: UFF, 1998, 10 p.
Disponível em:< www.uff.br/biblioteca/bancodeteses>
acesso: 01 dez. 2009.
Pires,
Maria de Fátima Novaes. Escravos, forros e livres, fio da vida. MOREIRA,
Raimundo Nonato Pereira. JUNIOR (org). Capítulos
da História da Bahia. Novos enfoques, novas abordagens. São Paulo: Anna
Blume, 2009, 320 p.
Pires,
Maria de Fátima Novaes. O crime na cor,
escravos e forros no Alto Sertão da Bahia (1830-1888). São Paulo: Anna
Blume, 2003, 279 p.
REIS, João José Reis. SILVA, Eduardo. Negociações e conflitos. A resistência
negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
[1]
Graduada em História pela Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais. Atualmente é pesquisadora e professora
da educação básica em Minas Gerais.
[2] De acordo com Hebe Maria Mattos: “Os
cativos, especialmente os nascidos no Brasil, possuíam um largo aprendizado de
uma política de negociação, desenvolvida no campo dos costumes e do poder
privado dos senhores. Se, em linhas gerais, a possibilidade desta política
representou para os senhores uma forma de produzir fidelidades e potenciar o
nível de sua autoridade entre os cativos, para os escravos ela buscou
primordialmente a miragem da alforria. Os níveis de frustração destas
expectativas que os senhores podiam produzir estiveram condicionados a um
cálculo dos riscos de insubordinação que aquela frustração poderia gerar” in
Das cores do silêncio. Os significados da liberdade no sudeste escravista.
Brasil, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 292. Ver
também REIS, João José, SILVA, Eduardo. Negociação e conflito. A resistência
negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Nenhum comentário:
Postar um comentário